VIDA NA ESCOLA

Meus pais não gostam da ideia de eu fazer faculdade de jogos digitais. Como posso convencê-los?

Recebemos esta interessante pergunta do Jonas, que está no segundo ano do ensino médio. Ele gosta muito de jogos, está interessando em fazer uma faculdade de jogos digitais, mas tem dificuldades de explicar para seus pais se isto seria realmente uma boa. Vamos tentar ajudá-lo!

O QUE MAIS IMPORTA É SER FELIZ

É um chavão dizer que o que importa é a pessoa trabalhar naquilo em que será feliz. O tenista Roger Federer, por exemplo, depois de atuar por mais de 20 anos como profissional, disse que se sentia como se nunca tivesse trabalhado, nem por um só dia! O mesmo exemplo poderia ser dado para incontáveis pessoas de sucesso e, possivelmente, este é um dos grandes desafios da vida de todos nós: descobrir aquilo que seremos felizes realizando no trabalho.

Levando em conta que a faculdade tem grande influência no profissional que nos tornamos, é claro que a escolha de qual curso fazer é super delicada, merecendo reflexão. Quem tem pais preocupados com o assunto, precisando “ser convencidos”, como é o caso do Jonas, tem mais é que agradecer. E, claro, dialogar.

No fundo, tanto o Jonas tem que entender que não é necessariamente óbvio que a faculdade de jogos vá ser uma boa para ele, quanto também seus pais têm que aprender sobre esta nova área. Nosso objetivo neste post é tentar ajudar a todas as partes. Vamos começar falando mais sobre o trabalho na área de jogos, para os pais do Jonas.

É PRECISO FALAR SOBRE O TRABALHO NA ÁREA DE JOGOS DIGITAIS

Quando assistimos a filmes, quase todo mundo sai antes do fim dos créditos. Afinal, quem aguenta ver tantos nomes de pessoas que trabalharam para que o filme fosse possível? Ainda bem que existem os filmes da Marvel, com seus famosos pós-créditos!

Há uma infinidade de profissionais trabalhando na indústria cinematográfica: atores, cinegrafistas, produtores, roteiristas, iluminadores, fotógrafos e muitos outros profissionais. Frequentemente, os créditos de um longa-metragem levam mais do que 5 minutos! E, na produção de um jogo digital, não é muito diferente: nos jogos maiores, nas super produções conhecidas como jogos triple A, às vezes há centenas de pessoas envolvidas.

Ao contrário, poderíamos pensar que para um jogo digital ficar de pé, “basta uma boa ideia na cabeça e um computador na mão”, para parafrasear a célebre frase do cineasta Glauber Rocha. Sim, é possível criarmos jogos sozinhos, bastando uma boa ideia e algum (muito) esforço. É possível até que o Jonas já tenha feito isso.

É até possível a gente ter algum sucesso com um jogo assim, criado por uma ou por algumas poucas pessoas. Este foi o caso do Guilherme, um aluno do Instituto Infnet que pagou sua graduação com as receitas do jogo que criou. Há muitos jogos que são produções independentes, ou indie, como são conhecidas no mercado. Nestes casos, uma ou umas poucas pessoas acumulam vários papéis.

Seja nos jogos triple A, seja nos indie, há profissionais de diferentes perfis envolvidos. Os jogos de verdadeiro sucesso são feitos com muito esmero e alto profissionalismo, envolvendo profissionais de diferentes perfis.

Alunos de game design
Alunos de Jogos Digitais em aula (Fonte: RIT.edu)

OS PRINCIPAIS PERFIS PROFISSIONAIS DA ÁREA DE JOGOS DIGITAIS

Tal qual acontece no cinema, na produção dos jogos digitais também há grandes equipes envolvidas, dependendo da maturidade e do tamanho do projeto. Hoje, há grande número de pessoas trabalhando na indústria de jogos, em uma variedade de posições. Veja a seguir alguns dos principais tipos de profissionais de jogos digitais:

  • Game Designers: responsáveis pela criação do jogo, pensando na sua mecânica, nas fases, no enredo do jogo, nos personagens, na dificuldade de jogar, em como tornar o jogo mais engajante. Tipicamente têm papel de liderança na produção de um jogo, interagindo com os demais profissionais envolvidos.
  • Programadores: responsáveis pela implementação da lógica do jogo em si, desenvolvendo o software que sustenta o funcionamento do jogo. Geralmente trabalham com plataformas específicas para a criação de jogos e linguagens de programação.
  • Designer ou Artista Gráfico: ilustram e criam toda a arte visual dos jogos, desenhando mundos, personagens, itens, interfaces com os usuários e até os manuais. Geralmente também envolve modelagem digital e animação 2D e 3D.
  • Músicos, artistas de som: atuam na criação de efeitos sonoros e trilhas sonoras pra jogos, super importantes para a imersão dos jogadores.
  • Produtores e Gerentes de Projeto: viabilizam produção, cuidando da logística e do gerenciamento do projeto em si, por exemplo contratando e gerindo pessoas. Quanto maior o jogo e o orçamento envolvido, maior é a necessidade destes profissionais.

Exemplos em créditos de jogos

Estes papéis que listei acima, no fundo, poderiam ser bem ampliados, sendo desdobrados e detalhados. Mas eles já mostram que a área admite uma variedade grande de perfis. Você pode constatar a variedade vendo os créditos de alguns jogos clássicos. No Youtube, veja alguns exemplos de créditos finais em alguns jogos clássicos: Zelda Ocarina of Time, Wing Commander, GTA e Angry Birds Fight. Mesmo no caso do Angry Birds, um jogo para celular, há dezenas de profissionais envolvidos.

A comparação com créditos de filmes é boa! Veja mais um exemplo, do jogo Witcher III. Neste caso, os créditos duram mais de 13 minutos. Se você observar atentamente, verá que cada um dos papéis que citamos acima aparece lá, só que desdobrado de diferentes maneiras. Por exemplo, além de um “game director”, também aparecem atuando no papel de game designer escritores, roteiristas, líderes em gameplay e projetistas de missões, entre outros.

A importância da graduação

Fazer uma faculdade em Jogos Digitais é ter contato com todo este mundo profissional, é ganhar uma visão ampla de todas estas áreas de trabalho, é vivenciá-las e ter contato com profissionais de todos esses perfis. É, naturalmente, muito mais do que simplesmente ficar jogando.

Então, sim, há vários profissionais ligados ao desenvolvimento de jogos digitais, que são requeridos por esta indústria. Fazer uma graduação na área, obtendo assim uma preparação para nela atuar profissionalmente e um diploma de graduação reconhecido pelo MEC, é algo que faz sentido, tanto quanto faz para várias outras profissões.

Agora, uma outra questão que poderíamos nos fazer é a seguinte: existe mercado? Tem gente contratando?

NO MUNDO, A INDÚSTRIA DE JOGOS DIGITAIS É MAIOR
QUE AS DE CINEMA E MÚSICA SOMADAS

Em janeiro de 2019, o portal Jovem Nerd noticiava que a Indústria dos videogames batia recordes e faturava US$ 134 bilhões. Deu também no Estado de São Paulo, no O Globo e até no New York Times. Mesmo que não possamos verificar com detalhes os números, há múltiplas fontes que nos informam que, hoje em dia, as empresas faturam mais com jogos digitais do que com música e cinema.

Não há muitas dúvidas de que a indústria de jogos é sólida e rentável. Em reportagem do Estado de São Paulo, o CEO do Netflix declarou: “Competimos (e perdemos) mais com o Fortnite do que com a HBO”, referindo-se ao jogo de grande sucesso da Epic Games. O gráfico a seguir, divulgado pela Ubisoft, uma das maiores empresas de jogos do mundo, é uma boa ilustração deste fenômeno:

 

Receitas Globais das Indústrias de Música, Vídeo, Livros, Cinema e Video games (reprodução)

NO BRASIL, O MERCADO ESTÁ EM FRANCA EXPANSÃO

No Brasil, também temos a indústria de jogos crescendo, apesar da crise econômica. O II Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais, um documento público de 350 páginas criado pela Secretaria da Economia Criativa do Ministério da Cultura, trouxe a informação de que já haviam, em 2018, 376 empresas desenvolvedoras de jogos digitais operando no Brasil.

De 2014 para 2018, comparando-se o primeiro com o segundo censo, houve um crescimento de 100% e, segundo o próprio relatório, “os dados apontam uma indústria em franco crescimento e de abrangência nacional, presente tanto nas capitais como no interior dos estados.” (p. 16). A maioria das empresas da área é ainda pequena e jovem, mas cerca de 40% delas já possuem mais do que 6 anos de idade, o que mostra certo amadurecimento da área. O gráfico a seguir, da página 26 do Censo, mostra o número de empresas em diferentes faixas de idade:

 

Reprodução

O número de profissionais trabalhando diretamente nas empresas desenvolvedoras de jogos teve crescimento de 141% entre as duas edições do Censo, chegando ao total de 2.731 pessoas. O número pode parecer pequeno, mas está em franco crescimento, assim como o número de empresas. E isso não envolve outras empresas associadas, que indiretamente participam da cadeia produtiva. No relatório do Censo há algumas comparações interessantes com o mercado de outros países.

Também há dados sobre diversidade de gênero, que mostram que a área está admitindo mais mulheres, que passaram a representar 20% do total dos profissionais, ante o número de 14% do Censo de 2014.

Jogos podem ir além do entretenimento

Vale comentar um último dado: a receita das empresas desenvolvedoras de jogos digitais não vem apenas do mercado do entretenimento. O entretenimento representa aproximadamente a metade dos jogos que são produzidos, sendo que parte destes jogos têm objetivos publicitários. Há também os jogos sérios, que representam cerca de metade dos jogos que são produzidos e envolvem principalmente educação e treinamento.

Em suma, há, no Brasil, um mercado de jogos emergente, com dezenas de empresas sendo criadas a cada ano. Essas empresas estão crescendo e absorvendo mais e mais profissionais e empreendedores. Este é um mercado novo, sem grandes grupos empresariais atuando, o que traz grandes oportunidades para novos profissionais atuarem.

Com todas as cautelas que devemos ter em relação a previsões sobre o futuro, tudo leva a crer que a área de games continuará próspera. Nos próximos anos, o maior obstáculo para o sucesso de um novo profissional será ele mesmo, como ele se prepara e como se comporta no mercado. Com isso, podemos voltar ao Roger Federer e ao Jonas.

A FACULDADE DE JOGOS SERÁ UMA BOA PARA MIM?

É totalmente possível o Jonas ser feliz e bem sucedido fazendo a faculdade e trabalhando com Jogos Digitais. Aqui no nosso próprio site há vários conteúdos que podem ajudá-lo a entender melhor o curso e a área, como a página de apresentação da graduação. Mas, no fundo, a resposta para isso tem muito a ver com o próprio Jonas, está dentro dele.

A faculdade não forma jogadores

Primeiro, é interessante que o Jonas perceba que uma faculdade de jogos digitais não é um local em que se vá aprender a jogar mais, ou que forme jogadores profissionais. Esta distinção é importante: nas faculdades de jogos, o que se aprende é a criar jogos, é a desenvolver jogos.

Geralmente, as pessoas que são felizes na área também gostam de jogar, mas não apenas. São pessoas que gostam de desenvolver, de criar, que se realizam vendo uma obra sendo criada. Em outras palavras, a graduação em Jogos Digitais só faz sentido para o Jonas se ele se enxergar trabalhando feliz na criação de jogos. O curso de jogos é para quem gosta de construir, desenvolver, criar.

O foco da faculdade está em criar jogos

Uma graduação em jogos digitais não pode ser confundida com um curso de programação, nem com um curso de design ou com um curso de animação. É um curso superior com uma perspectiva mais ampla, no qual o centro, o foco principal, é o jogo, é o lúdico. A graduação prepara o aluno para pensar no todo, em todas as etapas. Isto inclui programação, arte, design e animação, mas também envolve outras questões centrais, como pensar no público-alvo, na jogabilidade, na narrativa, no balanceamento. E também abrange decisões sobre o progresso do jogo, sua monetização, a gestão do projeto, trilha sonora, interface com o jogador e muito mais.

Caso você queira ser desenvolvedor de software ou animador ou artista gráfico, a graduação em jogos digitais não é a mais indicada. Para estes perfis, existem outras mais específicas. Por outro lado, se tiver certeza de que ama este universo da criação dos jogos, tranquilize-se: a sua graduação é mesmo a de jogos digitais.

O perfil empreendedor é muito bem-vindo na área

O Jonas também precisa ter consciência de que, fazendo o curso de jogos digitais, dificilmente vai pintar um concurso ou um emprego público. Pode até ser que surja algum, mas o mais provável é que o Jonas vá trabalhar em empresas de pequeno porte.

Outra possibilidade é ele empreender na criação de seu próprio estúdio de jogos. Assim, quanto mais ele se enxergar como pró-ativo e disposto a participar de novos empreendimentos, mais fácil será o seu sucesso na área. Para quem preza mais pela estabilidade ou quer conseguir um emprego público, a área de jogos digitais não é a mais indicada.

Espero ter te ajudado o Jonas, seus pais e os demais leitores! Essa resposta é o que realmente acreditamos, a partir de nossas experiências com este e os vários cursos da ECDD e do Instituto Infnet. Também reflete a própria concepção da nossa graduação em Jogos Digitais.

Esta resposta foi escrita inicialmente em setembro de 2019 pelo Prof. Eduardo Ramos.

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